sábado, 21 de março de 2009

COCÓ - UM GARNIZÉ DE ESTIMAÇÃO



Sempre fui muito “bichenta” como diria minha irmã! Daquelas pessoas que gostam de tudo mesmo, desde o maior animal, ao menor e mais feioso. Lembro que tentava salvar lagartixas congeladas, depois de uma noite gelada de inverno colocando-as no sol, a tentativa sempre foi em vão, porém, nunca desisti. Ou então passarinhos novos caídos de ninhos e os adultos machucados. Eu muito novinha, não tinha consciência que a natureza tem seus mistérios e que mesmo interferindo no curso natural das coisas o destino delas não mudaria, salvo exceções.
Recordo vagamente de um cão que havia na volta do caminho da escola, quase chegando em casa, que parecia pertencer à raça boxer, branco malhado em castanho e preto. Mas o que realmente me encantava era a cor dos olhos: um castanho e outro azul. E pensava: Como é possível !?!?
Nas idas e vindas da escola eu passava obrigatoríamente  por uma agroveterinária com muitas e muitas gaiolas com bichos de todos os tamanhos e tipos. E dizia que quando crescesse seria veterinária.
 Meu livro preferido chama-se: UM GATINHO NÃO É DEMAIS. Que contava a história de uma família em que secretamente cada integrante compraria um gatinho para presentear a todos.

Nada disto foi induzido ou qualquer coisa parecida, era amor nato.


Em uma das tantas vezes que passei pela Agroveterinária avistei um coelhinho lindíssimo: pelinho branco, olhos vermelhos, orelhas bem grandes.... tal como a musiquinha infantil de páscoa. Eu queria porque queria o tal coelho, meu aniversário estava próximo e a páscoa também. Pedi e fiquei na esperança de ganhar. Apesar das tentativas de explicações sobre minha rinite, que fazia questão se manifestar a todo momento.
Minhas crises alérgicas apareciam quando menos meus pais esperavam. Primeira filha, 'avós' distantes demais para recorrer a cada surto de tosse exacerbada que eu tivesse. Cada vez era um motivo diferente. Um dos ataques durou vários dias, sendo mais intensa a noite. Eu tossia muito, algumas vezes chegava a ter ânsias de vômito por causa da tosse seca e violenta. Meu pai saía durante a noite para comprar balas mentoladas para aliviar. 
Lavaram as paredes do quarto, pensando ser fungos, tiraram cortinas e qualquer outro objeto que pudesse ser moradia para ácaros e pó. Mas, adivinhem!!! A causa de tanto sufoco foi um travesseiro de penas que fazia pouco que eu tinha. Tirado o travesseiro, acabou-se a rinite.
Um certo dia, meu pai voltou do serviço com uma caixa nas mãos e me chamou para ver o que era. Pediu para que eu adivinhasse, chutei direto: – um COELHO !!! Então meu pai deu uma risadinha enquanto abria a caixa e eu me surpreendi com o animal que estava saindo de dentro: UM GALO...
SIM... um galo! Bem, na verdade era um galinho, com penas escuras pendidas para o preto arroxeado, um “colar” castanho, uma crista bem grande e manso. Meu pai se encantou com ele... Era da raça Garnizé uma miniatura de galo, já era velho, sabia-se disto pelos esporões bem grossos e calejados.E se vocês acharam que eu fiquei brava ou triste por não ter sido um coelho, suave engano: adorei o bichinho de estimação exótico!!! Não lembro se pus-lhe nome de cara, mas resumindo: o nome do bichinho era COCÓ. Assim também era o chamado para ganhar “comida”. 
A casa onde moravamos era de madeira, bem grande e tinha um porão, este tinha chão de terra fofa e umas madeiras atiradas a muito tempo. Da janela do meu quarto, olhando para baixo, via-se um espaço livre até o muro e nesta parte da casa o porão não era fechado, onde o galinho tinha livre acesso à luz do dia. Várias vezes era solto no pátio para ciscar a grama e comer insetos.
Cocó era um animalzinho muito bonzinho de ter em casa, ficava solto no pátio e não cavava buracos, no máximo dava um ciscadinha aqui e ali. Manso, adorava ser acariciado e logo fechava os olhinhos e movimentava a linguinha como que em sinal de satisfação. Como passava a maior parte do tempo “embaixo” da casa, sua sujeira passava praticamente despercebida. E de quebra era um despertador, pois rigorosamente, às 6h da matina se punha a cantar.
Eu amava meu galinho. Quem que já ouviu falar de alguém que teve um galo de estimação?!?! Eu tive! Aliás. Bem antes disto, quando eu tinha meus quase 2 anos de idade, eu ganhei uma galinha caipira, das grandes mesmo. Muito amigona e comia brigadeiro na minha mão, e ainda tenho as fotos para provar. Depois de muitos anos descobri o motivo do desaparecimento dela: virou galinhada! É... ainda bem que eu não soube, triste e revoltante, mas eu comi minha galinha de estimação! :/
Voltando ao Cocó. Certa vez estava a brincar com meu amiguinho e a mãe mandou que eu fosse arrumar meu quarto.Um detalhe que não podemos ignorar: tenho uma irmã e nesta época ela deveria ter uns 2 anos de idade. Como sempre a irmã mais nova quer o que a irmã mais velha está usand,. neste caso o “oque” era o Cocó.
Disfarçadamente subi para casa com o galo e o coloquei dentro da “pentiadeira”, em um compartimento fechado com portinha, na intenção de pegá-lo depois de arrumar o quarto e voltar a brincar. Me distraí e esqueci completamente do bicho. Quando voltei a procurar, nada... Não o achei em parte alguma. Passaram-se dias e eu chorava por causa do meu galo de estimação. Minha mãe tentava me consolar explicando que ele era muito dócil e que alguém poderia ter pego ele pelo portão da frente.
Uns dias mais passaram e  novamente estava arrumando meu quarto, quando bem baixinho eu escuto uns ruídos parecido a um “cocó” – que era um ruído que ele fazia enquanto caminhava e observava as mudanças no ambiente, assim meio estendento o som do último ó. - Fiquei em silêncio e escutei novamente, comecei a chamá-lo e a escutar o som com mais frequência. Me guiando pela origem do som, meio coisa de louca, comecei a abrir as gavetas até que abri a portinha onde eu tinha encerrado o pobre do bicho. Meu galinho estava fraco, com as penas comidas e todo sujo. Logo que saiu peguei ele com muita felicidade e saí gritando pra mãe que havia encontrado o galinho. Despejamos uma boa quantia de quirera pro bichinho acabar com o jejum de tantos dias.
Ai... que maldade deixar o bichinho preso. É, também acho. Mas eu era criança, fazer o quê?!
O animalzinho se recuperou e algum tempo depois uma das minhas vizinhas, a que morava na casa do lado direito à nossa, deu-me um presente: uma galinha!!! É... uma galinha garnizé amarelinha, pequenina, gorduchinha, para fazer parzinho com o Cocó. Ela não ganhou um nome, mas respondia  vindo em nossa direção ao chamarmos “Cocó, cocó, cocó”.
Agora é de se imaginar que da soma de um galinho com uma galinha surjam muitos pintinhos!!!! E o casalzinho teve muitas ninhadas. Todos sempre muito dóceis por serem manuseados com frequencia e tratados com muito afeto. Doamos a maioria das ninhadas, na última, quando pegava os “frangos” no colo, se aninhavam e permaneciam imóveis recebendo cafuné na cabeça.
Meu pai trabalhava no exército, como sabemos, militares trocam muito de cidade. Tive sorte de permanecer vários anos na mesma. Aos meus 9 anos, meu pai foi transferido de cidade. Por causa da mudança tive que dar meus animaizinhos para um amigo da família que também adorava animais. 
Lá se foi o Cocó, apesar de eu saber que não viveria muitos anos mais, não foi bom saber que ele n estaria comigo. No fim das contas nunca mais fiquei sabendo do galinho Garnizé que foi meu amigo por muitos anos.

9 comentários:

  1. 10!
    muito bonita história.
    Acho que conheci o Cocó! Sim, tenho certeza que o vi, e ouvi. Ou se não, muito ouvi falar dele.
    Quem tem esse sentimento em relação a animais, tem um coração do tamanho do mundo e muito amor pra dar.
    Ainda bem que conheço e quero muito bem a quem escreveu.

    Parabéns por ter uma história tão incrivel, tão bem vivida e tão bem escrita.
    Beijão Siba.

    ResponderExcluir
  2. É...convenhamos que você escreve muito bem neh Si.
    O melhor de tudo não é a narração da história mas sim essa lembrança bárbara que guardas na tua memória.
    Todos um dia tivemos uma relação especial com algum animal de estimação mas poucos são os que conseguem compreender o quão gratificante foi essa experiência que até hoje, mesmo anos depois, ainda vale a pena recordar...

    continua assim ;)

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  4. Apesar de você ser aparentemente bastante desligada e esquecida, mais uma vez está aí a prova de as coisas que marcam ficam muito vivas na nossa memória, com detalhes incríveis. Eu que acompanhei a história (com H) atesto a sua veracidade e a tua sensibilidade. Linda história e muito bem escrita. Um grande beijo.... Paipai..

    ResponderExcluir
  5. Que historinha linda Siba!!! Tu nunca me contou que teve um galinho.. hehehe Já a minha experiência com galinhas e afins não é muito boa. Conta o meu pai que eu tinha medo de galinhas pq certa vez uma pulou no meu carrinho quando eu era bebê... hahhahah (na verdade eu era fresca com bichos mesmo qndo criança)
    Beijos Cintia

    ResponderExcluir
  6. hehehehe... É às vezes eu lembro de contar que eu tinha um galo garnizé de estimação. e que quase matei o coitado, mas não foi por maldade, e sim por ditração. Eu amava muito aquele bixinho... bjos...

    ResponderExcluir
  7. Parabéns linda historia de amor para com os nossos "Irmãos menores" que tanto nos alegram e fazem parte de nossa história particular;confesso que me emocionei lendo seu doce relato e as lágrimas caíram,eram insistentes,mas foi algo maravilhoso encontrar seu blog em meio a tantas coisas que existem no mundo na internet;
    Eu sou um gaúcho nascido no interior e hoje em dia moro na capital Porto Alegre e desde sempre amei e continuo amando todos os seres que de alguma forma fizeram parte de minha infância,quantas memoráveis historias temos para contar de nossos bichinhos de estimação é você não foi a única em ter um galo de estimação..eu tinha um casal de garnize que ganhei da minha querida vó,que ainda vive hoje com 99 anos de idade,é fato consumado de que quem consegue amar um bichinho destes tem um coração digamos que sensiente,ou seja sensível e que diferentes da maioria que preferem não expor seus lados sentimentais ou seus sentimentos eu tenho orgulho dos meus ;penso que o amor humano é apenas uma pequena chispa derivante do "Amor divino" e tenho orgulho de senti-lo em meu coração apesar de ser um aquariano que muitos julgam ser distantes,independentes ou até mesmo frios,coisa que não é verdade.
    Eu morava num apto em Porto Alegre e mudei-me para uma casa com pátio justamente para poder ter meus garnizes que tanto amo,além é claro dos seus benefícios ter ovos fresquinhos e saudáveis caipiras no teu pátio não é tudo de bom?

    ResponderExcluir